Edifício Moreira Garcez é marco dos anos 20

O primeiro "arranha-céu" da cidade e do Paraná surpreende os incrédulos e sobrevive ao tempo como ponto histórico
 

Quarenta e cinco edifícios públicos, trinta igrejas, 240 ruas com denominação oficial, 13 alamedas, 23 avenidas, 25 praças, dez largos e dez travessas. Essa é parte do inventário arquitetônico de Curitiba no início da década de 20. O recenseamento indicava quase 79 mil habitantes. A Rua XV de Novembro fervilhava no cruzar de pedestres, bondes elétricos e os primeiros Fords 29. Em 1924 é inaugurada PRB2, a Rádio Clube Paranaense, primeira do estado, com notícias, variedades e o "imperdível" rádio-teatro. No fim de semana os "convescotes" ou piqueniques, ainda eram um entretenimento usual. No centro urbano, um dos pontos de encontro mais concorridos era a livraria Ghignone - na XV de Novembro - onde se encontrava a intelectualidade da época.
 

É nesse cenário de prosperidade que começa a surgir no final da década, em 1927, o primeiro "arranha-céu" do Paraná - e o terceiro do país -, o Edifício Moreira Garcez onde atualmente funciona o Shopping Center Garcez, na Rua XV de Novembro esquina com Voluntários da Pátria.

O prédio foi um desafio à imaginação dos cidadãos da época, que visitavam a obra, forjada em cimento e ferro - material importado da Alemanha -, incrédulos. "Vinha gente do interior para ver o prédio ser construído", diz o jornalista e pesquisador João Dedeus Freitas Netto.

Requinte

De acordo com registros da época, o engenheiro João Moreira Garcez contratou os serviços da Companhia Construtora Nacional S/A, do Rio de Janeiro, para executar a obra. Nas fundações foram usados troncos de eucalipto embebidos em óleo cru. A estrutura teve o reforço de um engenhoso sistema de vigas. Inicialmente, o projeto do edifício previa cinco andares mas, em 1928, Garcez pediu autorização à prefeitura para a construção de mais um andar alegando motivos estéticos.

 

Numa foto da Casa da Memória de 1929 já é possível ver o esqueleto do prédio próximo ao recém-construído Palácio Avenida. Em 1933, os primeiros andares do prédio foram concluídos. Os acabamentos esboçavam requinte: piso térreo e escadarias de mármore, detalhes em latãos nos corrimãos e elevadores, ferragens nas portas e janelas.

Reforma

Previsto para ser um hotel de luxo, o Garcez acabou abrigando nos primeiros anos salas comerciais. Durante a década de trinta cedeu espaço para o Consulado da Alemanha, a sede provisória do Cassino Estância das Mercês, o Palácio das Diversões Skating Golf Girls, os bailes promovidos pelo Bloco Please. Durante muitos anos, o quarto andar do prédio foi sede da Federação Paranaense de Futebol.

Numa foto da Casa da Memória de 1929 já é possível ver o esqueleto do prédio próximo ao recém-construído Palácio Avenida. Em 1933, os primeiros andares do prédio foram concluídos. Os acabamentos esboçavam requinte: piso térreo e escadarias de mármore, detalhes em latãos nos corrimãos e elevadores, ferragens nas portas e janelas.

Reforma

Previsto para ser um hotel de luxo, o Garcez acabou abrigando nos primeiros anos salas comerciais. Durante a década de trinta cedeu espaço para o Consulado da Alemanha, a sede provisória do Cassino Estância das Mercês, o Palácio das Diversões Skating Golf Girls, os bailes promovidos pelo Bloco Please. Durante muitos anos, o quarto andar do prédio foi sede da Federação Paranaense de Futebol.

Depois de diversas modificações, nos anos 80, o Edifício Garcez foi vendido para o grupo Hermes Macedo e reformado. A divisão técnica da empresa pesquisou materiais para fazer a recomposição da fachada e a preservação de parte das características originais. Permaneceram o hall de entrada, as escadarias de mármore, os corrimãos e os elevadores. Os vitrais internos, as janelas e os trincos puderam ser refeitos a partir de alguns originais que sobreviveram ao tempo.
 

Acidente
Tragédia na obra abala população

Além de ser considerado um edifício pioneiro de Curitiba e do Paraná, o Moreira Garcez também foi cenário de uma tragédia que abalou a cidade no segundo ano de sua construção, em 1928. Atrás do canteiro de obras, num barracão, funcionava o Cine Theatro Palácio. O cinema já era um programa bastante prestigiado nesta época.

Era um domingo de fevereiro. Em cartaz, o filme "O Barqueiro do Volga". Para chegar ao local da sessão, os espectadores tinham que passar por um pontilhão de madeira sobre o fosso das fundações do prédio. Nesse dia, a multidão forçou a passagem e as madeiras do pontilhão se abriram. Várias pessoas, entre elas crianças, se feriram e cinco morreram. (DSB)
 

Região do Centro Cívico ainda era paisagem rural

Enquanto a Rua XV de Novembro se firmava como o centro nervoso da cidade, os bairros evoluíam a passos mais lentos na terceira década deste século. Locais, como o Centro Cívico, onde circulam milhares de pessoas hoje, eram esboços distantes de bairros urbanizados. Como ressalta o jornalista Eduardo Emílio Fenianos na coleção Bairros de Curitiba que mapeia a cidade, o pintor Alfredo Andersen retratou a região do Centro Cívico em 1921 como uma vasta paisagem rural. No Alto da XV, região considerada distante do centro na época, era possível brincar nas águas do Rio Juvevê enquanto no Cristo Rei, apenas algumas casas de ferroviários se destacavam no relevo de campos. Nos finais de semana, a pescaria era um típico programa da época, mas sem perder o estilo das roupas quase sempre formais.

                                        
 
Os imigrantes continuavam imprimindo sua marca no comércio e na lavoura, principalmente em regiões como Santa Felicidade, dominada pelos italianos. "Assim como ensinavam, os imigrantes também aprendiam novas técnicas. Do contato com os caboclos da região, os italianos aprenderam a trabalhar o vime", ressalta Fenianos. Ao lado da erva-mate, o cultivo do vime se tornou permanente no bairro.

Secos, molhados e neve

Enquanto isso, o crescimento de outros bairros proporcionava a formação de novas comunidades. Em 1927, os irmãos Paciornik colocavam a venda 940 lotes no Bigorrilho. No mesmo ano, era inaugurada nas imediações a Sociedade Cultural Beneficente, onde hoje fica o Champagnat Shopping. A Igreja Católica abre mais uma porta para os fiéis, também em 27, agora nas Mercês. No Água Verde, os comércios de secos e molhados funcionam como pontos de encontro. "No armazém, as últimas notícias eram descobertas, as conversas colocadas em dia e os sonhos ou desilusões da rotina analisadas enquanto uma e outra dose era servida", diz Fenianos.
 


 

O inverno rigoroso de 1928 traz a neve ao bairro do Cabral. Uma imagem preservada pela Casa da Memória exibe os campos que cercam a Igreja do Bom Jesus do Cabral esbranquiçados pelo gelo que cai do céu. Em outra, moradores posam à vontade na neve que só voltaria a Curitiba em julho de 1975. (DSB)
 

Chegam os primeiros ônibus

Em 1928, a South Brazillian Raylwais Ltda. deixa de ser a concessionária do serviço de bondes de Curitiba. A incumbência agora é da Companhia Força e Luz do Paraná, que também explorava o serviço de energia elétrica do estado. No mesmo ano em que assumiu a concessão do sistema de transporte, a Força e Luz põe em circulação os primeiros 15 ônibus da capital que cobriam linhas como Rua XV-Vicente Machado, Marechal Floriano-Cemitério Municipal e Praça Tiradentes-Colônia Argelina. A passagem era mais cara em relação aos bondes elétricos. "Nessa época apenas 1/5 da população opta pelo ônibus. O restante continua a usar os bondes", salienta o jornalista e pesquisador Raul Guilherme Urban.
 


 

Como o principal negócio da Força e Luz era o fornecimento de energia elétrica, a empresa, desestimulada - o município impedia o aumento de tarifas -, começaria a ter concorrência em 1930, quando entram em circulação as primeiras linhas particulares de ônibus. Na década de 50, os ônibus, mais eficientes e seguros, tomariam conta das ruas e substituiriam por completo os bondes. (DSB)

Danielle Soares Brito
Com a colaboração de Eduardo Fenianos

Edição: Hilton Luiz Ache Garcez