A respeito de sua infância, há um curioso documento pertencente ao arquivo da Igreja de Saint George, em Hanôver Square em Londres. Trata-se do batismo coletivo de nove irmãos, realizado em 15 de maio de 1829. Na singular cerimônia, foram acolhidos como anglicanos os menores George( 15/12/1813), John (25/11/1814), seguindo-se pela ordem de idade, Kate, William, Edmund, Charles, Clara, Frederick e Henry. O futuro João Inglês aparece nessa anotação apenas como John. Não é o primogênito. Há um irmão mais velho George. Os nove filhos de John George Moojen, originário do norte da holanda, e de Katherine Turner, Inglesa, casados em 21 de setembro de 1814, na igreja de Barking. Quando do batizado de 1823, mocinho, 14 anos, John, concluído os preparatórios, ingressou numa academia militar, destinado a adquirir conhecimentos em medicina e farmácia, que o habilitassem servir no corpo médico do exercito Inglês. Começava o ano de 1834. A Inglaterra atravessava período difícil. Extintos os burgos podres, e a nova lei dos ceriais, que protegia os feudos, levava a população mais pobre à fome. A lei das navegações também obstava o desenvolvimento do país. A flor dos 19 anos, John continha dentro de si selvagem alegria de viver. Carecia de um pretexto para ganhar o mundo, e desligar-se das raízes que o prendiam em Londres. O pretexto deve ter sido Willliam, seu irmão, 18 anos, que se encontrava em Santos. A vinda de William para o Brasil estava ligada a um corriqueiro conflito doméstico. Adolescente, Rebelde, disposto a não continuar reverenciando a autoridade paterna, ele arranjou esconderijo no porão de um navio destinado a misteriosa América do Sul, John então desligou-se da academia militar. Interrompendo os estudos, viajou atras do irmão. "Deixei minha querida pátria e família para o Rio de Janeiro onde cheguei a 28 de agosto de 1834. Do Rio de Janeiro embarquei para Santos para visitar meu irmão. Cheguei dia 20 de setembro. Ele só voltaria a escrever lacônicas informações em caderno de viagem a partir de junho de 1836, quase dois anos depois com o reencontro com William. Há um lapso de tempo de vinte meses em que não se ficou sabendo o que fez. Quase certo que tenha permanecido em Santos, morando com William, afinal seu irmão, por quem estava ali. Anos depois referindo-se a aqueles primeiros tempos no Brasil e querendo explicar que a afinidade entre irmãos, não decorre de consanguidade, John Inglês soltou uma frase de sabedoria: Eu e William bebíamos do mesmo rio, mas em margens opostas. O pequeno diário, até o casamento de John e Leduina, demonstra o exercício de atividade nômade. A palavra "Left" da começo a muitos de seus telegráficos registros. Da canoa, percorri o rio Ribeira até as 5 da tarde. Obrigado a permanecer por causa da chuva pesada. Depois John informa que deixou porto de cima. Embarcando rumo a concepção, viajando a noite inteira. Chega a Santos as duas da tarde de primeiro de julho. Doente ( infecção intestinal ), só se recupera uma semana depois. Volta a Paranaguá; dali Morretes, Curitiba, Ponta Grossa e, finalmente Tigagi, permanece em Tibagi. Dai Castro, Curitiba, Morretes, Paranaguá e Santos . O jovem Moojen andava em busca de ouro, diamantes e pedras preciosas. Sempre que obtinha resultados voltava a Santos, vendia as pedras e voltava a mesma rota, à procura do famoso rio Tibagi. Há historia de um naufrágio do qual escapou devido à sua condição de excelente nadador. Conta-se também que os bugres instalados as margens dos diversos rios que ele percorria davam-lhe ajuda, guiando-lhe ou cuidando da carga na hora do mergulho. Para não despertar cobiça, certa vez ele teve que esconder os diamantes debaixo da língua. A 7 de março de 1837, desligando-se de William, deixou Santos por Tibagi. A vida aventurosa estava para terminar. Casado foram lhe nascendo os filhos, primeiro Ovídio, depois MARIA LUIZA ( minha triavó ). John George e Leduina viviam em paz. Exercendo a medicina, e fazendo certas trocas mercantis, o moço morava em Castro, mas também usava o sítio da Ribeira. Considerava-se integrado a nova vida. "Minha sogra comadre Constança Maria de Almeida, teve um ataque apopléctico, de repente, dia 15 de março de 1845, domingo. Sepultada na vila de Castro". Depois bem humorado, John relata que mandou Joãozinho à Lapa "para apanhar dois cavalos e uma mula que lá deixei, na volta do sul ele trouxe um cavalo e duas mulas". Certo domingo de fevereiro, oito da noite encontrava-se no sítio da cercadinha. Teve uma premonição. Sem motivo ficou muito triste. Parecia-lhe que estava para receber notícia de alguém de sua família que tinha morrido na Inglaterra. Registrou a emoção no diário: "esperava isso com medo". Não demorou muito foi informado que William estava doente, foi a caminho de São Paulo. Os médicos que o assistiam não lhes davam esperança. O pior aconteceu. Patético João Inglês anotou em seu caderno: "Meu muito amado irmão William espero que Deus o tenha em sua santa glória 10 de julho de 1846, quinta entre cinco e seis da tarde, sepultado no convento. "Que ele durma em Cristo que seu túmulo frio e silencioso sirva de descanso para seu corpo fatigado, e que a alma preciosa e imortal, carregada pelos anjos ao paraíso, passe a companhia dos homens justos, tornados perfeitos." Nas andanças entre Santos e São Paulo à procura do irmão doente, quase sempre a cavalo, Leduina acompanhou o marido. Grávida, quase no fim da gestação, não houve condições de voltar a Castro, Jorge, o terceiro filho, nasceu em São Paulo.
Da morte de William os pais e irmãos, na Inglaterra, tomaram conhecimento. John cumpriu o penoso dever de dar-lhes a notícia. Ainda recebeu cartas de casa, uma delas escritas por Kitti, sua mãe, com aquela letrinha redonda, tão familiar. Kitti se dizia doente. Partindo do princípio de que já não era a mesma pessoa, que tudo tinha mudado. João Inglês resolveu romper os laços que o ligavam aquele passado distante. Não escreveu mais a família. Rasgou duas cartas recebidas, não tomando conhecimento do seu conteúdo. "Prefiro que pensem que morri". Em 1848, novembro, nasceu Ernesto o quarto filho, meses depois, , o cunhado de João Inglês, Francisco Inácio Ferreira, o lendário Chico Furriel, fazendeiro estabelecido em Estância Velha, perto de Lagoa Vermelha, chamava-o. A mulher de Francisco Inácio, Maria Eufrosina, gravemente enferma, precisava de cuidados médicos. Moojen deu-lha atendimento, saiu de Castro a cavalo. Viajou mais de um mês. Entendendo que seu destino seria "pagar o último decreto da vida no Rio Grande do Sul", João Inglês mandou um peão de confiança buscar a mulher e filho em Castro. Leduína enfrentou a custosa viagem. Chegou em Estância Velha a 28 de julho de 1849. No ano seguinte nasceu Maria Amélia, "boa e meiga menina" a primeira Gaúcha da família. O casal passou a morar em Passo Fundo. Vieram os três últimos filhos: Augusto, Teodoro e Madalena. 1862, setembro: a derradeira mudança dos Moojen. Destinados a Lagoa Vermelha, João Jorge e Leduína, ali iam viver vinte e poucos anos que lhes restavam. A Imagem de João Inglês deixou esta ligados a esses anos passados, em Lagoa vermelha. O Jornalzinho "Iris" em setembro de 1910, 25 anos depois da morte de Moojen, cumpria um dever ornamentando a sua primeira página com o retrato de um homem de bem. A humanidade sofredora encontrou nele um coração aberto a prática do bem-fazer. Inúmeras afeições ainda bendizem a sua memória. A recordação que deixou faz certo que a vida não começa no berço e nem termina na sepultura. A caminho dos 50, em pleno vigor físico, barba branca e figura austera de João Inglês impunha-se aos respeitos de todos. Moradores de vasta região dependiam de seus conselhos, nas horas aflitas, de sua presença, nem que fosse para consolar. Os primeiros tempos em Lagoa Vermelha foram bons. Mas a guerra do Paraguai veio quebrar a tranqüilidade da família. Contratado como cirurgião pelo governo Imperial. O Dr. Moojen ficou quase três anos longe de casa. Prestava serviço na divisão sob as ordens do General Portinho. Levou em sua companhia como enfermeiro o filho Ernesto. De febre tifóide , Ernesto morreu em plena campanha. João Inglês a tudo assistiu impotente, admitindo até que "Deus sabe o que faz e para o que faz" Registrou a morte do filho, um menino tão querido, "na flor dos anos". Preciso seria não ter coração para ignorar o que é uma saudade". Dai começaram os casamentos. MARIA LUIZA ( minha triavó ) encontrou TRISTÃO ( meu triavô ), seu parente. Jorge namorou Maria Inacia, filha de Antônio Manoel filho, e foram felizes. Antônio Cândido veio ao encontro da eterna Maria Amélia, Augusto casou-se com Sinhá , sua sobrinha. E Ovídio selou o seu destino, na Lapa, ao de Tereza Aulália. Então chegou a vez de Madalena, linda mocinha, que disputava a vantagem de ser caçula. Joaquim Lacerda, tropeiro no Paraná, com ela casou-se em maio de 1874. Quando Madalena beijava os irmãos, antes de acomodar-se no selin da banda, na hora da partida da viajem para a terra no noivo, João inglês pressentiu que dela estava se despedindo. "Creio que será feliz. É uma menina de bons sentimentos. Só um casamento não deu certo , o de Teodoro, que teve a infelicidade de encontrar "uma mulher, sem préstimos e terrível", chamada Brasilina. "Mulher como a dele não se encontrava nem no império da China, nem nas três maiores províncias do Brasil". Teodoro suicidou-se em Lagoa Vermelha, anos mais tarde.
Os últimos tempos de João Inglês revelavam sua preocupação com a morte. Faleceu nhá Ruiva, mulher de Antônio de Matos. Foi encantada por um feiticeiro de nome benedito. Fanatismo é o que o povo achava. "A terra lhe seja leve". "Sem noticia positiva de Madalena, foi me conformando a triste lembrança de que não virá tão cedo. Paciência. Liduína me fez ver que estou envelhecendo. Principiei a sentir o duro peso da decadência. No fim da vida, as irmãs Kate e Clara, deixadas na Inglaterra em passado longínquo, voltaram a povoar a sua cabeça. Um Inglês, idioma a tanto tempo abandonado, ele confessou "Antes que morra aqui, seria bom se pudesse rever minhas irmãs. Deus permita que eu possa ver. Sou um pecador, mas peço clemência." Manhã de setembro 13 de setembro de 1885. Chuva. Era a primavera. Saindo ao sol, João Inglês foi ao jardim colher violetas. Usava tamancos. Ao voltar, sentiu-se tonto. Olhou as mãos. As unhas estavam rochas. Caminhou até o quarto. Muito doente, Leduína dormia. Ele amarrou um lenço de seda na guarda da cama. Era o seu último abraço. ( john viveu 69 anos 10 meses e dezoito dias )
"O ACASO SERÁ REY DO MUNDO? CREIO QUE NÃO"
Do original: Left Santos for Paranaguá on board the french brigs la drias Capt. P. Postal Loaded in 10 days with 6349 Kg of herva mate 30 Left paranagua 22 june 1836 to return to Santos by land Left there at 3 AM as arreved al the varador at 6 PM 22 by wather
DE 1934 ATÉ 1949 JOHN ESCREVE O DIÁRIO EM INGLÊS POR ISTO NÃO TRANSCREVI ESTE PERÍODO, E APÓS TIREI ALGUMAS COISAS QUE ACHEI INTERESSANTE, PORTANTO O DIÁRIO QUE SE ENCONTRA EM MEU PODER NÃO ESTA TRANSCRITO NA ÍNTEGRA
Farei algumas citações do diário de John o qual tenho em meu poder
Jorge Guilherme Moojen casou com da. Maria Inacia, na Estrema, no dia 10 de fevereiro de 1872
Liduína me fez ver que eu estava envelhecendo visivelmente no dia 8 de abril de 1872. Antes dissesse no 1º que tomava pa. logro, infelizmente é certo. é tempo de abraçar a religião. Durarei ainda 15 anos talvez. Durarei 60 anos.
Theodoro E. Moojen casou no dia 22 de novembro de 1873. Segui para lapa em companhia de seus sogros e mulher no dia 4 de dezembro de 1873
Augusto casou no dia 27 de Dezembro com sinhá. Maria Luiza deu luz a Olímpia no dia 18 de Fevereiro de 1874 as 8 1/2 da tarde
Maria Inacia Moojen deu luz, um menino no dia 4 de março de 1874 (João)
Maria Amélia deu luz no dia 1º de fevereiro de 1875 a 1 hora da manha. Alzira.
Maria Luiza deu luz. Maximiliano 20 de maio de 1876
Maria Augusta Moojen deu luz a uma menina 2 de outubro de 1876
Nicota de Souza Feijó, casou 22 de fevereiro de 1877
Grande seca até 9 de fevereiro de 1877. Muitas moléstias
Já principiei a sentir o duro peso da decadência. já fiz 62 no dia 25 de novembro de 1875. o que fazer 5 de março de 1877.
Continua a grande seca 7 de março de 1877 - 4 meses quase que não chove.
Finalmente a chuva 12 de março de 1877. Satisfação geral até das plantas.
Faleceu a nha ruiva mulher do Sr. Antônio de Matos 1º de julho de 1877
Manoel Moreira Garcez Júnior faleceu em Castro em 2 de junho de 1877
Minha querida Magdalena deu a luz ao seu primeiro filho em 2 de agosto de 1877
Maria Amélia Moojen deu luz a um menino ( Antônio ) 26 de dezembro de 1877
Falece no dia 8 de julho de 1878 o pobre Coronel Francisco Inacio Ferreira (Chico Furriel )
Maria Luiza deu luz 31 de março de 1879 - Balbino
O Theodoro E. Moojen com sobra de razão abandonou a sua ingrata e desprezível mulher. 1º de junho de 1880
ANOTAÇÕES ( tia Constança
João Jorge Moojen, nasceu em 25/11/1815, em Londres, veio para o Brasil em 15/06/1834 como ajudante de médico de um navio e acompanhou seu irmão guilherme que foi cônsul em São Paulo.
Por razões desconhecidas, aqui ficou, casando em Castro, no Estado do Paraná, com Liduína Eufrazia Garcez, no ano de 1837.
Alguns anos depois veio para o Rio Grande do Sul, estabelecendo-se em Lagoa Vermelha, onde no exercício de sua profissão mostrou-se um abnegado. Inúmeros foram os benefícios que prestou aquela gente.
A fama de sua bondade e competência espalhou-se pelas redondezas e em sua casa havia sempre uma romaria de doentes. Conta-se que quando morreu em 13/09/1885, nem o coveiro quis cobrar a sepultura.
Hilton Luiz Ache Garcez E-Mail - garcez@portoalegrense.com.br